O soco mais poderoso que a sua estrutura biológica teria possibilidade de produzir. Uma explosão de energia em quase todos os músculos do seu corpo. O punho atirado como uma flecha, impulsionado por vários quilos de carne que compõem suas costas, ombro e braço. Esse tiro vai na direção de um rosto. Imagine em quem seria. A única pessoa que vem na sua cabeça.
A área atingida seria parte do queixo e bochecha do seu alvo. Seus dedos fechados, dedicadamente apertados para que sua mão vire uma rocha, impactando-se contra um maciço saco de ossos e dentes. O choque forma uma onda magnífica na pele que reveste a caixa craniana. Em um milésimo de segundos a mucosa da boca espremida contra os dentes se rompe em rachaduras e cortes profundos. O sangue corre, livre.
Esse soco acerta a face da sua angústia. Racha os ossos da corrupção e prostituição que você tanto despreza. Esmigalha os dentes dos moralismos românticos, dos estilos de vida budistas, meros disfarces de uma vida cheia de arrogância e egoísmo. Rasga a pele de todas as piadas que você teve que rir por etiqueta. Rompe os vasos sanguíneos de todos os cumprimentos que você prestou por educação, evitando desconfortos por preguiça.
Em dias recentes, uma súbita nostalgia me fez buscar lembranças e referências de O Senhor dos Anéis. Obra que declaro a mil certezas ser a minha bíblia, o conto máximo de ficção certa vez concebido pela história da humanidade. Nostálgico ou não, posto minha eterna gratidão ao inglês John Ronald Reuel Tolkien, nome que jamais esquecerei, e minhas mais sinceras congratulações ao diretor Peter Jackson, o Copolla dos anos 2000.
Por que O Senhor dos Anéis fascina? A resposta para mim é curta, mas não simples: aplicabilidade. Além da veracidade do universo em que somos colocados, a maravilhosa Terra Média, a trama que ali se passa em torno dos personagens pode ser aplicada às nossas vidas, nos mostrando os medos e as coragens que compõem uma situação difícil e desesperadora.
Sim, muitas outras obras de ficção podem ser interpretadas pela ótica da metáfora aplicável, mas a genialidade de O Senhor dos Anéis se dá por ser uma composição perfeita de situações que nos desperta um sentimento muito nobre: a vontade de seguir adiante, não importa como, nem por onde, mas até o fim. Regados pela lealdade, bravura, a esperança e a dedicação, os personagens se agarram no bem que existe no mundo para não tomar tudo por perdido.
É uma história de muitos protagonistas, nos quais cada um de nós podemos encontrar diferentes identificações. O hobbit Frodo, ínfimo em tamanho e poder, acaba recebendo o fardo de acabar com a maior ameaça de todas. O bravo Aragorn lidera os exércitos dos homens sem esperança. O mago Gandalf dedica todo o seu poder e sabedoria ao bem, e é de sua intuição que entra na história um dos personagens mais sensacionais de toda a saga: Samwise Gamgi. Ele reúne todas as qualidades de bem que a trama oferece, e as potencializa. A coragem, a lealdade, a responsabilidade e a esperança são constantes incondicionais em sua jornada, e, não obstante, ele cuida daquele que carrega o fardo. Todos nós que nos entendemos por estar do lado do bem, lutando contra uma situação difícil, temos alguém assim ao nosso lado. E, muitas vezes, acabamos sendo alguém assim. E é daí que a aplicabilidade de O Senhor dos Anéis se faz tocante e especial.
Em uma das cenas mais marcantes do filme, em que a trama está em seu clímax mais profundo, Sam estica a mão para que Frodo não caia em um abismo de lava e diz as seguintes palavras:
"Don't you let go".
Traduzindo em contexto, ele diz: "Não desista".
E assim consegui concluir o porquê de O Senhor dos Anéis ter a capacidade espontânea e sincera de encher meus olhos de lágrima com simples memórias. Porque todo o fardo que os personagens do bem carregam trata-se de não desistir quando tudo parece se encaminhar para a ruína.
O universo de Tolkien marca minha vida desde a minha adolescência, quando com 13 anos entrei no cinema e me deslumbrei com as cenas épicas e mágicas. Além de ter me despertado a paixão da leitura, hoje, com 23 anos, essa obra magnífica tem cada vez mais significado para mim, em uma profundidade psicanalítica que me surpreende cada vez que assisto ou leio sequer trechos dos livros.
E percebi que, quando atravesso situações que assolam meu ânimo e minha esperança, inevitavelmente procuro me envolver novamente nas órbitas aconchegantes de tal obra que é e será inspiração em minha vida até o fim de meus dias.
Dia do Escritor. Toda história, real ou ficção, se faz escrita. A escrita é a base da comunicação entre eras e gerações. Lendo, nós descobrimos o que aconteceu, o que acontece e, às vezes, o que ainda virá a acontecer. Lendo, nós acompanhamos heróis em batalha e presenciamos quedas de tiranos. Então os olhos se erguem das páginas e tudo volta ao normal. Textos ergueram nações e destruíram povos. Decretaram guerras e selaram pazes. Pontas de penas e de canetas, e agora as teclas, das quais utilizo, são um tipo de poder, sementes de ideias. Assassinos de ídolos carregaram livros embaixo de seus braços. Devastadores de nações descreveram suas lutas. Pregadores da bondade comoveram multidões e deram esperança ao mundo. Terras fantásticas foram construídas, centímetro a centímetro. Crimes foram estudados e desvendados. Nos foi mostrado que há muito além do bem e do mal. Mas o bem insiste em vencer. E pessoas são massacradas. Nossos dinheiros mudam de valor. Nosso vizinho nos mostra no que está pensando agora. Nossas máquinas ficarão mais potentes. A natureza sucumbirá diante do progresso.
E nós leremos sobre isso.
Quando nascemos, nossos nomes são escritos, lidos, e assim passamos a existir.