quarta-feira, 6 de maio de 2009

Ensaio sobre a miopia

Ontem eu usei óculos o dia inteiro. Não gosto muito disso, pois o peso das lentes de vidro, com o tempo, começa a penetrar sua armação no nariz, além de vários outros pequenos incômodos: sujeiras, marcas de gordura dos dedos, a atenção para não fazer nenhum movimento brusco com as mãos perto do rosto. Uma vez, saindo do trem, naquele empurra-empurra que daria inveja em qualquer general romano e suas linhas de batalha, uma velha imbecil esbarrou a mão no meu rosto, jogando meus óculos para o vão entre o trem e a plataforma e, obviamente, sumiu no meio da multidão. Fiquei putíssimo. O guarda os resgatou para mim, sem nenhum dano; agredeci.
Mas os óculos, diferentemente das lentes de contato, podem ser retirados a qualquer momento, e essa, para mim, é a maior vantagem de usá-los. Quando os tiro e deixo minha visão ser comprometida pela miopia, as pessoas se transformam somente em corpos que se mexem, sem face, sem identidade, sem expressão. Gado.
Prefiro assim.

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